sexta-feira, 27 de junho de 2008

História poética de dias ordinários


A leitura de O Observador do Mundo Finito deixa aquela sensação de engasgo. Somente depois de ter chegado ao fim de seus versos é que nossa respiração retoma o fôlego, um respirar remarcado pela ansiedade, angústia, talvez a dúvida nas horas do instante de uma vida. Múltiplas percepções, enfim. Sentimentos e atitudes se entrelaçam nessa escrita, o que faz com que questionemos: quem fala nesses poemas? Ora, a resposta poderia ser: Túlio Henrique Pereira. Mas reducionista, se considerarmos essa escrita de si como uma obra ensimesmada.

A cada página observamos um trajeto individual guiado pelas dobras da história do nosso dia-a-dia, muitas vezes, terno e erótico, bio-químico e bio-político, espaços fincados em lugares que recitam a ausência, solos metafísicos que se materializam nas várias costuras do raciocínio tortuoso de um olhar para fora de si. O Observador do Mundo Finito, assim, parte do exterior de nós mesmos, passando pelas veias de dentro das mãos e da cor dos olhos de um poeta que se mescla à presença do outro que nele deixa as suas marcas.

Nesse livro encontraremos um conjunto de poemas, à primeira vista, irregular. Sintamos, então, como Túlio Henrique, não o sol que aquece, mas o que queima a pele. E daí, usando um percurso raciocinado, identificaremos um fio regular que vai escorregando por todas as páginas. As imagens que saem de seus poemas vão construindo um filme que nos coloca como ator principal de cada poema, as velhas pequenas histórias que nos lançam ao passado de uma tia, ao nosso cabelo, àquele toque que nos virou no avesso, à revolução interna das feridas, ao grito de independência incessante e diminutamente inalcansável. De tanto pular fronteiras, na dispersão de espaços outros, o livro começa quando termina. Quando o fechamos, vemos de novo seu título, O Observador do Mundo Finito, referência não explicita em nenhum dos versos, mas neles presente pela ausência.

Ora, ao invés de entrarmos em contato com o infinito, aquela viagem sem fim dos poemas, uma volta ao mundo espontaneamente dividido em palavras, a linguagem perdida dos anjos, um estilo arrojado de temática marcante, encontramos o comum. Uma pequena história poética de dias ordinários. Isso sim assusta e surpreende. Essa regularidade de mostrar o que estamos sendo no mundo desdobra-se nos sulcos que falam de nossa finitude, sem ser julgada, que não se quer transformada ou capitulada. Um livro de poemas que fala da poeira, das cinzas, do velho e que, por isso, ao falar do que tem fim, mostra a impaciência de viver e faz surgir o novo, recriando os já tão repetidos ditos em tantas vidas e obras. Dobras do futuro próximo.

Ao estabelecer os limites do homem, o observador que é Túlio Henrique, olha também com nossos olhos o nascimento de idéias e lugares, que imperiosamente constroem um saber sobre essa vida tão simples da qual se adivinha um por vir impossível. Do interior desses poemas, ela, a vida, parece supor e instalar em cada momento uma atualidade, permitindo que se prescreva suas formas nos modos de vivê-la por meio de nossos corpos, nossos desejos e pela maneira de ser da linguagem. Esses imensos detalhes talvez nos façam pensar que é preciso viver o tempo de outra maneira.

Certamente, um trabalho que impõe o rasgo e a interrupção ao centro do nosso presente, colocando a questão tanto de nossa identidade quanto de nosso tempo. Uma cartografia de migalhas de vida e linguagem, que mapeiam a história dos instantes, que se acorrentam à fina cadeia dos pensamentos meio a nossa existência em forma de livro, O Observador do Mundo Finito, com nome de autor, Túlio Henrique Pereira, o qual permite generosamente falar nossas próprias vozes e recontar nossas histórias de poesias diárias.


Nilton Milanez
Doutor em Lingüística pela UNESP/Sorbonne - UESB/BA
Vitória da Conquista, BA, 22 de setembro de 2007

Breve história de "O observador do mundo finito"


Ao ler os versos de Túlio Henrique a sensação inicial é de angústia. De súbito, nosso funcionamento fisiológico muda repentinamente de modo incontrolável. A baba fica viscosa e não consegue passar normalmente pela garganta, logo se percebe que há um nó emperrando o seu caminho.

E nos questionamos: que nó será esse? Acredito que tal nó seja o presente, ou melhor, a relação que o homem estabelece com seu tempo presente. Um presente que está a nossa frente a espera de ser decifrado, e talvez por isso ele nos cause tanto estranhamento.

Muitos outros sintomas dessa angústia, desse viver para o qual se procura um sentido, podem ser observados atualmente em nosso país e no restante do mundo, como a violência urbana, o consumismo desenfreado e tido como vital para a nossa existência, a falta de respeito ao próximo, o uso de drogas sintéticas, a morte dos espaços públicos, como também a morte do homem como ser político e participativo. Túlio prefere os versos, a escrita; escrita que dá materialidade a tais sentimentos; escrita erudita e elegante que brinca com as palavras e lhes confere o sentido desejado por aquele que as escreve. Definitivamente, as palavras estão sob o julgo do autor.

É necessário enfatizar que a poesia de Túlio Henrique revela uma grandiosa sensibilidade para captar as sensações do seu tempo, em um texto carregado com uma boa dose de ironia, uma maneira, creio eu, de exercitar sua verve crítica com relação ao seu presente e sua sociedade. A ironia muitas das vezes é recurso de compensação pela falta de algo. Seria a falta de um sentido para a vida? Túlio Henrique no poema Descarte nos sugere uma resposta:

“Nada me falta/ porque nada tenho/ Não tenho a mim/ nem a
você/ e nem a ninguém/ Não sinto nada/ porque nunca aprendi sentir/ por nunca
querer sentir/ nem tanto busca-lo/ desapareço quando penso/ quando não penso
inexisto/ esses têm sido os conflitos meus/Tudo tem sido meu esconderijo/ Eu não
me esconde de Deus/ eu inexisto/ pra qualquer dádiva, todo sonho/ esmaeço em
partículas quando respiro/ o ar que não mereço/ Nem pra mim eu desejo nada”.
(p.27)
Essa falta de sentido para os tempos atuais é a finitude do mundo, em que Túlio se coloca no papel de observador. Esses versos, ao se referirem à nossa existência cotidiana são como flashes eletrônicos, rápidos e seqüenciados. Pois nos colocam em contato com um turbilhão de sentimentos e sensações: insegurança, ansiedade, amor, excitação, desejo, solidão, êxtase, sexo, aromas, sabores, texturas, medo...; medo de um presente sem respostas, sem destino, estamos tateando no escuro.

Esse universo movediço de sentimentos, sensações e desejos, aos quais me referi anteriormente é uma representação da nossa sociedade atual. Um mundo em que o desejo é constantemente reatualizado pelas imagens e sonhos instantâneos produzidos pela mídia e que estimulam nossos sentidos. Ah, o desejo!! Hoje é ele o senhor, senhor com S maiúsculo, de modo que enfatizaremos nossa servidão a esse sentimento. Desejo que produziu máxima “o cliente tem sempre razão”, pois quando este não se sente satisfeito no seu papel de consumidor, quando seu desejo não é saciado ele reclama, esperneia ou procura novas maneiras de ter seu desejo completamente preenchido, em outras palavras, ele se volta para outro fornecedor de sonhos, também conhecidos como produtos ou mercadorias.

A poesia de Túlio Henrique remete ao fato que estarmos diante de uma pulverização dos sentidos, das emoções, por isso é cada vez mais difícil distingui-los, pois são muitos e se alternam rapidamente, disso vem a sensação de não sentirmos nada, de estarmos vazios. Nem temos tempo para sentir esse ou aquele sentimento ou emoção e logo são trocados, substituídos. Sentimentos e emoções passageiras, rápidas, tal qual a nossa atual percepção de tempo, tal qual nossa imensa incapacidade de se ligar a algo fixamente nos dias atuais.

Este trabalho pode ser lido sob duas lentes, uma na qual podemos interpretar o estilo da escrita como reflexo dos tempos atuais, de múltiplas sensações que tem o poder e a função de estimular nossos sentidos. Sob outro ponto de vista é também uma crítica a essa falta de sentido, de um grande projeto, de uma grande narrativa. De tal modo que, esses versos tratam de uma constante busca, de algo a ser atingido, a ser encontrado, mas não se sabe onde está nem para onde foi. Existe apenas um forte desejo de encontrar. Sua poesia nos transporta à monotonia do viver dia após dia, um viver repetido e compassado e que não nos leva a lugar algum. É dessa ausência de sentido que fala o trabalho de Túlio Henrique.

O homem contemporâneo caminha no escuro num mundo com uma nova dimensão de espaço e de tempo que ainda lhe causa pavor e estranhamento; este novo homem se assemelha a um bebê, engatinhando e tateando o espaço que ainda lhe é desconhecido, ao mesmo tempo modificando este espaço e a si próprio também.

E, a exemplo do que afirmou o historiador inglês Eric Hobsbawn em sua Era dos Extremos, talvez o preço a pagar nesses tempos de transformação é a escuridão. Em outras palavras, não podemos nos furtar em viver o presente. O poema Alameda de Saudade expressa com mais exatidão os significados de tal escuridão, vejamos:

“Caminho só por entre árvores/ Em uma estrada escura e quente/ Não
há luz além da lua/ Não há outro toque além do vento/ Tem dias em que a dor se
exalta/ A voz não fala e a boca cerra-se/ Algo melhor existe no nada/ Enquanto a
estrada não se finda/ Persigo o caminho do silêncio/ Ao final das palavras
nocivas/ Eu lamento tanto e só tenho lamentado/ Enquanto a chuva cai me
diluindo/ Esta estrada não termina/ Só dúvidas das vidas que não sigo/ Tenho
tido tempos óbvios e dias rígidos/ E peço a todos que não amolem enquanto vivo”.
(p.80)
Cássio Melo
Mestre em História pela UNESP/Assis
Jaboticabal, São Paulo.

Identidade negra com lirismo contemporâneo

Ilustração, Quince Jones (músico norte-americano)

o vento não esvoaça meus cabelços
porque são crespos... curtos
símil deles?
aparentemente pretos
...
a água
passeia pelos meus cabelos
crespos
curtos
...belos (PEREIRA, p. 59)


Um livro de poemas nada convencional trazendo muito da identidade negra com lirismo distante da pieguice. Despreocupado com a estética poética tradicional, portanto distante das nuances concretas, o jovem escritor Túlio Henrique Pereira nos oferece uma leitura intrigante e questionadora.

Em “O observador do mundo finito”, seu livro de estréia na poesia brasileira, esse jovem pesquisador em história fala do mundo real visto através da subjetividade de seu olhar, contando o cotidiano de sujeitos normais, muitas vezes esquecido pela sociedade contemporânea.

A pele toma conotação de vestimenta na abertura do livro com o poema “Vestido de sol”, onde o poeta se liberta da condição de segregação reservada ao homem dito ‘moderno’: livre das concepções ideológicas que lhe cegam, este homem encontra no cosmos a proteção mítica da necessidade de sobrevida, que se consiste na real essência do viver. Narrando a felicidade sem adjetivações, percebemos um ser vestido apenas com a pele, sentindo-a no seu flanar mais sublime e sólido. Vê-se o sol vestindo-o no corpo, sentido apenas pela pele e o consciente.

Assim o poeta segue nas páginas seguintes com sua escrita esfarrapando o tempo fiapo por fiapo, mostrando-se humano e dorido, profundo e tardio, distante e solitário em seu ofício de observar aqueles que existem, embora se permitam inexistir em tempos de ditadura velada, consciência coletiva e fome. Fome seja essa de desejo ou demasiado desejo por tudo que não alimenta.

Não por acaso o filme “A conquista do paraíso” (1492 - Conquest of paradise) de Ridley Scott é referência na capa do livro, em uma ilustração em aquarela e lápis aquarelável baseada na primeira cena do filme.

Para muitos o livro é um chute no estômago, enquanto para outros sua contextualização se reserva a uma fase de aprendizado e existencialismo do próprio autor. As respostas são inconclusas até que a obra se defina como retrato ou plumagem temporã.

O observador do mundo finito

Falemos deste livro, começando por questionar desde o título, nada é por acaso e tudo são acasos… observações. O observador, personagem do livro, é aquele que lhe empresta voz, sendo nós levados a identificá-lo com o próprio autor. Mundo finito, o lugar onde se desenvolve a ação. Quererá o autor destacar o pendor realista das suas observações, a fuga a uma abordagem mais metafísica do mundo?Chama-nos a atenção o cuidado texto introdutório à leitura do livro, assinado por Nilton Milanez. Sendo o mesmo interessante e bem presente, é bom destacar algumas idéias força dele retidas: 1 «depois de ter chegado ao fim de seus versos é que nossa respiração retoma o fôlego», chama a atenção para a capacidade de captar a atenção do leitor; 2 «Sentimentos e atitudes se entrelaçam nessa escrita, o que faz com que questionemos: quem fala nesses poemas?», é sempre uma boa questão e interessa ler a resposta; 3 «A cada página observamos um trajeto individual», interessante idéia a reter a de trajeto e viagem; 4 «muitas vezes, terno e erótico, bio-químico e bio-político, espaços fincados em lugares que recitam a ausência, solos metafísicos», salientar a diversidade do registro; 5 «um poeta que se mescla à presença do outro que nele deixa as suas marcas», as marcas da alteridade; 6 «encontraremos um conjunto de poemas, à primeira vista, irregular», apontemos de novo a diversidade e variedade. São poemas de grande liberdade formal, de variado folgo na dimensão do número de versos ou do seu cumprimento. Fiquemo-nos pela análise de dois poemas apenas, os primeiros. No primeiro 8 versos em 3 estrofes: 3+3+2. No segundo 18 versos em 2 estrofes: 12+6. Deste mostremos a variação no cumprimento dos versos: «Ironias», o mais pequeno, «Nunca é pouco nem barato pensar», o maior. Para além de todas as opiniões críticas e filosóficas, capazes de configurar uma boa abordagem da matéria que se apresenta na leitura, nada a substitui. Limitar-me-ei a indicar este livro como uma boa leitura, com a capacidade de prender a atenção. Dizendo isto, está tudo dito, é preciso ter essa experiência que não pode ser substituída. Caso contrário podia ser assim o desfecho, comparemos o livro a um filme:
– Então, quando o vais ver?– Já contaste a história, já não me interessa ir!
Uma última nota, do texto introdutório, dando valor à presença do mesmo: «O Observador do mundo finito, referência não explicita em nenhum dos versos, mas neles presente pela ausência».
Boa viagem, para quem se dispuser a viajar na leitura que este livro oferece.

Francisco Coimbra
Ponta Delegada, Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, Portugal insular, Atlântico.Domingo, 06 de abril de 2008.

Mundo mágico das letras

Matéria publicada no jornal Diário da Manhã no caderno DM Revista dia 07/03/2008.

O primeiro contato com a literatura para Túlio Henrique Pereira, 26, foi aos 4 anos de idade, quando a mãe, Francisca Alves Pereira “empregada doméstica”, comprava livros infantis para ler à noite para ele. Desde criança, Túlio Henrique sentia necessidade de criar um “universo mágico”, onde pudesse inventar e contar os acontecimentos à sua maneira. O sonho cresceu e virou realidade. A idéia é concretizada no livro O Observador do Mundo Finito, que será lançado amanhã pela Scortecci Editora. A venda do livro estará disponível pelos sites da Livraria Asabeça (www.asabeca.com.br) e Livraria da Lua (www.livrariadalua.com.br).
A obra é composta por poemas que retratam a realidade de “homens infames”, ou como define o autor, o transeunte perdido na movimentação das ruas modernas, que precisa se esconder da chuva, simples mortal atravessando as ruas. O Observador do Mundo Finito é composto de 68 poemas urbanos, distribuídos em 92 páginas que mostram um olhar de um espectador sobre tudo o que é externo ao seu ser, sobre todos os acontecimentos que provocam indignação. “São as pessoas de carne e osso como eu que vulgarmente são tratadas como massa. Procuro valorizá-las em minha literatura. Não há heróis em minha obra”, explica. Para esse trabalho, Túlio Henrique realizou a construção literária baseada nas poesias que escreveu ao longo da vida. As experiências derivam desde a convivência familiar, da realidade que tem sobre o comportamento humano até os questionamentos sobre a realidade em que está inserido.
Mesmo tendo sido educado apenas pela mãe, que estudou até a 4ª série primária, a influência para leitura foi presente em sua vida. “Apesar de ela não ter concluído os estudos, sempre me incentivou a estudar para ser alguém na vida”, ressalta. Além dos clássicos da literatura infantil universal, como O Gato de Botas, João e Maria, Soldadinho de Chumbo, O Patinho Feio, Túlio, ao contrário da maioria, que lê primeiramente autores brasileiros, começou sua viagem literária por escritores estrangeiros. “Minha mãe tinha em casa alguns exemplares de Agatha Christie e Sidney Sheldon, mas estes não me atraíam muito, apenas folheava as páginas”, relembra.


INSPIRAÇÃO

Considerado uma criança tímida e de poucos amigos, desde a infância, Túlio Henrique, que nasceu em Itumbiara, sempre se refugiou nos livros. Na escola, na hora do recreio, ao invés de brincar no pátio com os demais colegas, ele preferia ir para a biblioteca ler, manter contato mais intimista com o mundo das letras. Foi a partir da 5ª série que experimentou o trabalho dos grandes escritores da Língua Portuguesa: Luís de Camões, Fernando Pessoa, José de Alencar, Machado de Assis, e um dos seus maiores inspiradores, Dalton Trevisan.
Por falar em inspiração, ao ler o poema Moraliza o poeta nos ocidentes do Sol a inconstância dos bens do mundo, do poeta barroco Gregório de Matos, popularmente conhecido como “O Boca do Inferno”, foi quando lhe brotou a vontade de escrever poesia. Aos 15 anos de idade, Túlio Henrique constatou que a escrita vai além de meras palavras, e que “reunidas de forma ordenadas” provocam revoluções, mudanças nos sentimentos. “Nesse poema, a dor e o sofrimento do autor transpõem o sentido das palavras e adquirem forma ao traduzir o sentimento que eu sentia na época e ainda sinto. É essa inquietude que me leva a escrever e a questionar.”
Para o escritor Túlio Henrique Pereira, a maior revolução que a literatura causou em sua vida foi a de ajudá-lo a construir um mundo paralelo onde pudesse existir, identificar-se e “acima de tudo me reconhecer como membro ativo dentro da sociedade que me pertence”.
Segundo o escritor, esta explicação justifica-se pelo fato de ele ser negro e de família humilde. “Ainda estou em processo de construção de minha identidade como afrodescendente”, diz. Válvula de escape escolhida, Túlio Henrique, dos 15 aos 18 anos, na fase escolar, produz peças de teatro, contos e romances.

Link para esta matéria:

http://www.dm.com.br/materias/show/t/mundo_mgico_das_letras



TRAJETÓRIA ACADÊMICA E INFLUÊNCIA FILOSÓFICA

Animado com suas produções, o jovem escritor Túlio Henrique Pereira, 26, monta em sua cidade natal a companhia de teatro Idealizadores da Arte, onde tem a oportunidade de aprender a produzir e dirigir. Contudo, devido à pouca experiência e maturidade, a companhia não vai muito além de um sonho efêmero. Dura apenas poucos meses.
Apesar do tempo escasso, mas de grande efervescência cultural, Túlio Henrique escreve duas peças que considera imprescindíveis para seu amadurecimento como escritor: Atos da Paixão, comédia que satiriza a sociedade gaúcha da década de 1920 por copiarem o “jeito afrancesado de ser”, na época considerados modos afeminados; e o drama Tremor da Carne, que faz alusão às angústias e à dualidade entre materialidade e espiritualidade do período medieval trazida para o mundo contemporâneo, retratando pessoas comuns com habilidades especiais, sufocadas em suas angústias e anseios de uma vida melhor e hedonista.
Empolgado com sua produtividade, Túlio Henrique resolveu participar, em 2005, do concurso goiano “Arte Criatividade”, promovido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi), com o conto Mundo Azul Cor de Fel, história que narra a percepção do mundo observada pelos olhos de um autista. “Uma pessoa que é excluída em sua própria família e também da sociedade”, explica o criador. Vencedor em sua categoria, o escritor recebeu como premiação a publicação do conto na 5ª Antologia Poética, organizada também pelo Sesi. Pela primeira vez, ele tem um trabalho publicado.



MÃE

O mundo das palavras sempre esteve presente na vida de Túlio Henrique. A começar pela forte influência da mãe e também na busca pelo primeiro emprego, que foi no jornal quinzenal Correio do Centro-Oeste. O jovem repórter também trabalhou nos periódicos Folhas de Notícias e Diário da Manhã, em Itumbiara.
Preparando-se para o vestibular, o estudante teve contato com pensadores como Renée Descartes, Michel Foucault, Nietzsche e Freud. Já na Universidade Estadual de Goiás (UEG), onde graduou-se em História, ele começou a amadurecer suas novas vertentes literárias. “Esses filósofos me fizeram ver o quanto minha poesia era imatura, que não acrescentava em nada. Joguei boa parte delas no lixo e outras reescrevi”, recorda.
Na faculdade, Túlio Henrique intensificou seu gosto pela pesquisa e como trabalho de conclusão de curso apresentou uma monografia que resgatava a memória do artista plástico goiano Onofre Ferreira dos Anjos, conhecido como “Guigui”. Ao longo de sua vida artística, retratou por várias vezes nas telas a cidade de Itumbiara. Como reconhecimento à sua pesquisa monográfica e à importância do trabalho de Guigui, a capa da lista telefônica de Itumbiara vem com ilustrações da pintura do artista plástico.
Entretanto, a maior incentivadora de seus estudos, Francisca Alves Pereira, não esteve ao seu lado quando resolveu cursar História e seguir a carreira literária. Segundo ele, a mãe sempre sonhou com um futuro estável para o filho e acredita que ser escritor no Brasil não traz garantia de vida tranqüila. “Minha mãe tinha medo que eu não desse certo na vida, preferia que fizesse um curso técnico”, conta.
Atualmente Túlio Henrique mora na cidade baiana de Vitória da Conquista e se prepara para ingressar no mestrado. O foco de estudo para trabalhar sua tese é Pele e sensibilidades em bom-crioulo: das práticas de memória sobre o negro na literatura à legitimação identitária na contemporaneidade, que visa buscar uma identidade negra, a partir do livro Bom-crioulo, de Adolfo Caminha.
”Não é uma visão caucasiana, mas sim uma análise de quem conhece as múltiplas identidades negras existentes em nosso País. Na maioria das vezes, opacizadas pelos discursos antropológicos, históricos, sociológicos e literários em voga”, esclarece.
Túlio Henrique lança, ainda no mês de abril, o livro O Observador do Mundo Finito nas cidades goianas de Itumbiara, Catalão e Goiatuba. Este ano, o jovem escritor participa da 20ª edição da Bienal Internacional do Livro em São Paulo, que acontece no período de 14 a 24 de agosto de 2008, na capital paulista.

Link para esta matéria:

http://www.dm.com.br/materias/show/t/trajetria_acadmica_e_influncia_de_filsofos



Fonte: Diário da Manhã